Textos da Cíntia

Segunda-feira, Abril 28, 2008
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ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE
Memórias de uma vendedora de shopping


Capítulo 42 - Primeiro emprego

Chega uma hora em que a adolescência acaba e a gente começa a querer trabalhar.
Pra algumas pessoas é uma necessidade, pra ajudar em casa. Pra outras é aquela história de ter seu próprio dinheiro, não ter que ficar pedindo pros pais, dependendo de mesada. Eu tinha que pagar a faculdade.

Cada grupo social tem um padrão para o primeiro emprego. O pessoal mais pobre vai ser faxineiro, office boy, essas coisas. Tem gente que procura trabalho em escritório, atendimento em banco, aprendiz de qualquer coisa.
No meu círculo, as meninas iam trabalhar em loja de shopping.
Quando chegou a minha vez, foi pra lá que eu fui.

A verdade é que todo primeiro emprego é uma bosta, não importa a área. Além do trabalho em si ser sempre aquilo que ninguém mais quer fazer, Você ainda não sabe nada sobre nada e a empresa, que sabe disso, monta em cima.

A chefe inventa reunião, você vai. Inventa regra sem sentido, você segue. Diz que você não está se esforçando, você acredita. Faz de conta que seu cargo é disputado e importante pra te fazer se decidar e você fica lá, trabalhando com medo de ser mandado embora por qualquer coisa.

Mas a gente não sabe disso quando resolve trabalhar.

É por isso que eu fiz um currículo todo bonitinho, pus uma foto bonita e fui toda produzida entregar nas lojas. Mais de 50 lojas em 3 shopppings. Entrava toda sorridente, chamava o gerente entregava os papéis como se eu tivesse nascido para vender roupas.

Parecia uma ovelhinha retardada indo pro matadouro achando que, sei lá, tá indo pastar. E você só percebe o papel que fez quando vê outra pessoa fazendo o mesmo. Cada vez que entra uma embonecada toda sorrisos pedindo pelo gerente, eu tenho vontade de gritar "Corra enquanto pode!".

Mas fico quieta. Todo mundo tem que ter seu primeiro emprego de bosta. E o meu foi esse.


Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
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SUCH A BEAUTIFUL DAY

Uma sala branca vazia. O chão, de taco de madeira. As arestas revestidas por um rodapé combinando com o piso. De frente para a porta, uma janela ainda sem moldura. Uma tomada em uma das paredes, um interruptor de luz na outra e uma lâmpada no teto.
Entro, jogo a bolsa e algumas sacolas num canto, vou ver a rua. Pacata, arborizada. Uma padaria na esquina, uma praça mais adiante.
Meu bem chega em meia hora com a primeira parte da mudança: uma cama, alguns puffs para a sala, a TV que ganhamos dos padrinhos. Comigo vieram toalhas, objetos de banheiro, um relógio de parede.
O sol ameno do fim de tarde de janeiro vem esquentar meu rosto. Ô gostinho bom...


Quarta-feira, Dezembro 05, 2007
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ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE
Memórias de uma vendedora de shopping


Capítulo 13 - Colegas de trabalho

Meio tonta de sono e ressaca, abri os olhos. Vasculhei à minha volta com o olhar tentando identificar onde estava. A luz da manhã invadia o quarto por entre uma tira torta da veneziana na janela, iluminando só um filete do ambiente. O suficiente para evidenciar o pó que subia do carpete no chão, uma calça masculina da [nome da loja] jogada de qualquer jeito e a parede oposta. Vencendo o incômodo da lente de contato ressecada consegui ler a sigla rabiscada na tinta desgastada: LHP. “Caralho”.
Sabe aquela sensação de que você fez merda? O coração disparou e a adrenalina que jorrou no meu sangue afastou o sono rapidinho. Virei o rosto. Pelado, do meu lado, ele.


Quinta-feira, Novembro 22, 2007
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ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE
Memórias de uma vendedora de shopping


Capítulo 21 - Palestra (des)motivacional

Hoje tivemos que ir para o [outro shopping], participar de uma reunião, não disseram exatamente de quê.
Encontrei a [vendedora xis] no hall do elevador, fomos juntas para o décimo sexto andar.
Era uma palestra motivacional. É foda ser obrigado a ficar ouvindo um babaca falando sobre vestir a camisa da empresa quando se trabalha em uma loja. Essa merda de empresa jamais veste a minha camisa. E cobra pela dela - só tenho 50% de desconto nas roupas que sou obrigada a comprar para usar enquanto trabalho.
O discurso de hoje incluia pérolas como "você tem que investir na sua imagem. Como vai vender uma blusinha fashion pra cliente se vpcê está de regatinha básica? Precisa ter as mais elaboradas também!". É a loja que paga a merda da blusinha?
Outra: não é legal pegar as coisas e sair no minuto exato em que acaba seu horário se você perceber que a loja está com movimento e seus colegas precisando de ajuda. Tem que ter um sentimento de equipe, uma solidariedade.
Quantas vezes a loja teve uma postura solidária quando precisei? Quando fiquei de exame na faculdade não pude sair mais cedo pra estudar. Tive cólica num domingo e saí mais cedo. Contaram como folga.
E hoje, então? Duas horas nessa palestra ridícula sobre métodos de venda e eu ainda tenho que fazer meu horário normal na loja. Duas preciosas horas da minha vida jogadas fora.
Eu só não mando a tiazinha do RH à merda porque sei que esse é só o papel que ela tem que cumprir. O trabalho dela é falar bosta pra gente. O nosso é vender calça skinny pra mulher gorda.
No fim do mês, todo mundo ganha o seu salário e paga as contas e pronto.


Terça-feira, Novembro 20, 2007
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ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE
Memórias de uma vendedora de shopping


Capítulo 12 - Ainda sem título

Fui até o canto mais escuro do estoque, apoiei a cabeça sobre a mão, fechei os olhos.
"Força!". Tanta loja naquele shopping e a mina dele tinha que querer vir comprar aqui?
Rolou aquele encontro tenso de olhares quando meu ex entrou na loja. Não nos cumprimentamos. O [vendedor] atendeu os dois e eles foram para o outro canto da loja.
Eu estava atendendo um outro cara. Continuei sorrindo, sendo simpática, mostrando roupas.
Por dentro, morrendo de vontade de sair correndo dali.
Não nos víamos há pelo menos mais de um ano, desde que terminamos. Quer dizer, vamos ser sinceros. Ele que terminou comigo, num dos útlimos dias de aula. Na formatura, já estava com outra.
Nunca mais conversamos. Quando a namorada dele entrou no provador, ele veio em minha direção. Não, eu não estava preparada. Ia acabar amolecendo, chorando ou perdendo a compostura no meio do expediente. Ele não merecia. Ainda mais porque era aquela piranha que ia sair com ele dali.
Falei pro meu cliente que ia buscar uma camiseta legal pra combinar e corri pro estoque.
Até que enrolei bastante, mas quando saí, dei de cara ele. Todo sem graça, me pediu pra avisar o [vendedor], que tinha entrado no estoque, para trazer uma calça tamanho 36 pra ela - a 38 ficou sobrando na cintura. Eu sou manequim 40. Não que eu me ache gorda, mas é sempre ruim saber que você foi trocada por alguém mais magra.
A tortura durou mais uns 40 minutos. Ela, que parecia não saber quem eu era (ou tinha sido), ficou pedindo a minha opinião. Fiz o que pude pra ela decidir logo por um modelo (o mais caro) e sair logo dali.


Dois dias depois, o [ex] voltou aqui. Dessa vez, me chamou pelo nome. Pedi uma pausa pra fumar e fui conversar com ele.
"Desde quando você fuma?".
Eu sabia que ele detestava, então fiz questão de acender um cigarro - e até de fumar.
"O que você quer?"
"Foi estranho te reencontrar depois de tanto tempo... Você tá diferente..". Fez aquela carinha de bom-moço do início do namoro.
"Pensei que a gente podia sair um dia desses, comer uma pizza, conversar melhor". Tentou passar a mão no meu cabelo.
Cachorro.
"Qual o nome dela?"
"[nome]. A gente não tá..."
"Ela sabe que você tá aqui?"
"Não, quer dizer, eu tava por aqui e daí resolvi passar na loja.."
Desencostei do murinho, apaguei o cigarro.
"Que foi? Peraí...".
"Se você quer foder com ela como fez comigo, o problema é seu. Só não me envolva nisso".
"[protagonista]"
Com o coração disparado, surpresa pela minha própria frieza, saí andando, as fortes pisadas do salto no mármore do chão me dando orgulho de mim mesma.


Quinta-feira, Novembro 08, 2007
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ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE
Memórias de uma vendedora de shopping

Capítulo 5 - Não-fumantes que fumam

Odeio fumar. Demais. Não vejo graça nenhuma ficar no meio daquela fumaça, infestando meu cabelo, minhas roupas. Sinto como se estivesse enfiando um escapamento na boca.
Eu não fumava antes da loja. Aí percebi que os fumantes sempre tiram um intervalo de uns quinze minutos no meio do dia pra acender um cigarro. Tentei sair pra "tomar um ar fresco" outro dia e tomei um come. A loja tava cheia, aquela playboyzada olhando, olhando sem comprar. Ar fresco não é vício, não merece intervalo, "se não tem o que fazer, vai baixar estoque".
E os colegas espairecendo à vontade no meio da fumaça. Então foda-se. Decidi que, pra eles, eu fumo. Acabei de entrar nessa loja, esse papo ainda cola; além do que, nunca mencionei nada a respeito antes. A [colega-amiga], que fuma de verdade, costuma sair comigo pra me dar cobertura.
Tenho três maços na bolsa. Um eu comprei, o resto peguei usado dela. Um do câncer, com aquele cara da perna amputada, o da impotência, que tem um cigarro com cinzas caídas sugerindo uma broxada, e o da menina asmática. Esse último me incomoda um pouco, mas é melhor que o dos ratos. Fico dividindo o conteúdo entre eles, levo o mesmo durante uns dias.
De vez em quando, dá merda. Outro dia, encontrei o [gerente] numa dessas escapadas. Eu tava sem a [colega-amiga], tive só tempo de acender um cigarro, dar um trago muito a contragosto e ele chegou.
"Opa. Isqueiro?". Emprestei o meu para ele acender o dele. Ele começou a fumar normalmente e eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer. Dei mais dois tragos e deixei cair, fingindo um acidente. "Merda". Ele ofereceu outro. "Não, deixa quieto. Já era o segundo... Melhor ir com calma, to querendo desapegar. Vou dar um pulo no banheiro e depois volto pra loja".
Lavei minha boca, as mãos fedidas de tabaco, o rosto cansado. Olhei-me no espelho e mentalizei: "coragem, nega./ Só faltam R$ 870 pra bater a meta de hoje". Eram 17h40 ainda.


Quarta-feira, Outubro 31, 2007
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Hoje se completam quinze anos exatos desde o dia em que eu e minha família nos mudamos para o apê onde vivemos.
Eu tinha sete anos e era Halloween; fui até à festinha que o condomínio fez para as crianças, com uma mini-vassourinha.
Lembro o quão assustadora era a visão do meu quarto no começo do dia, cheio de brinquedos e roupas encaixotados. Um desespero. Naquele dia, minha mãe disse para minha irmã e eu irmos brincar enquanto ela arrumava a casa.
Quando voltei, sabe Deus quanto tempo depois, meu novo cantinho estava impecável, com colchas verdes de verão esticadas sobre as camas e a escrivaninha toda organizada. Adorei. Foi um marco de passagem.
Nesses sessenta e cinco metros quadrados, deixei de ser criança dentro de alguns anos, meu corpo mudou, minha mente também. Nunca mais as coisas se resolveram tão facilmente quanto a bagunça do meu quarto. Por outro lado, eu aprendi a não me apavorar tanto diante das badernas que a vida me aprontou.
Agora, debutamos, os dois.
Happy anniversary.


Quinta-feira, Outubro 11, 2007
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PENSAMENTOS SOLTOS, TRADUZIDOS EM PALAVRAS

O amor deixa marcas.
Sejam das unhas nas costas, seja da lágrimas nos papéis.
Deviam fazer uma exposição artística sobre o tema.
Já pensou? A Bienal do Ibirapuera cheia de marcas de amor, tristes ou felizes, das mais clichês às mais inusitadas. Formariam-se filas enormes do lado de fora, a marquise cheia de pseudo-cults comentado "estou ansiosa pela obra da mãe judia que perdeu o filho num massacre neo-nazista". Poderia também haver uma seção só para a falta de amor. Como um cartão repleto de confissôes românticas sepultado em um envelope fechado, com carimbo envelhecido do correio.

A mesa vibra a cada acorde. São, na verdade, os olhos que vibram, no ritmo da emoção que os sons lhe produzem.
Sente um arrepio nascer e morrer na lateral da cintura. Ah, que diferença não fazem os bons fones... Que saudade dessa sensação profunda de ouvir música com a derme.


Quarta-feira, Setembro 19, 2007
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DELICATESSEN

Na sala do presbítero, espelho, caixa de maquiagem, nécessaire, biombo, ferro de passar, lenços, rádio: o ambiente era dela. Pediu à mãe, à cunhada e às primas que lhe deixassem a sós por um segundo, antes de se dirigir à porta da igreja.
Fitou seu reflexo com gosto. O vestido branco, de tecido grosso, caimento discreto e corte delicado, cobria toda a sensualidade preparada da moça. Meia fina presa à lingerie de renda por uma cinta-liga. O corpo jovem da noiva estava enfeitado provocativamente e estrategicamente embrulhado na branca discrição do tafetá, era uma sobremesa em vitrine de delicatessen. A harmonia era a materialização de uma metafóra: a capa da inocência estava pronta para ser retirada e revelar o desejo cultivado e preservado para um único homem. Safra 1985.

To be continued...


Segunda-feira, Setembro 10, 2007
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DIA MUNDIAL PARA A PREVENÇÃO DO SUICÍDIO

O mundo dorme e ele sofre. Está deitado em sua cama, quieto, inerte. Cada músculo do corpo está contraído pela dor que vem de dentro.
O desespero sem sossego de quem se sente encurralado pela vida.
É na agonia que ele amadurece a resolução de não deixar os problemas sem solução o dominarem - a última palavra será dele!
Ele está por um fio. E, muito em breve, ele engordará as assustadoras estatísticas da OMS: a cada 30 segundos, uma pessoa comete suicídio em algum ponto do planeta.


Quarta-feira, Setembro 05, 2007
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PEQUENO MANUAL DE ELEGÂNCIA PARA ESTAGIÁRIAS DE SÃO PAULO
(talvez sirva para outras grandes cidades)

Trabalho com revistas femininas e leio sobre estilo e moda o dia inteiro. Percebi que eu, estagiária paulistana, não sou o público alvo desse tipo de publicação.
Nesses meus quase quatro anos nessa vida de faculdade e trabalho, aprendi que não dá para querer invejar a atriz global que faz spa toda semana e compra roupa na Oscar Freire. Mas isso não quer dizer que eu tenha que andar por aí dando dó nos outros. Existe um meio termo.
Resolvi compartilhar com minhas semelhantes minhas dicas para estagiar sem perder a pose.

Visual
- Não deixe o sono monstro de manhã arruinar seu visual! Separe a roupa que vai usar na noite anterior (dá preguiça, mas compensa) e carregue um mini-kit de maquiagem na bolsa, com lápis, rímel e batom/gloss para se produzir em dois minutinhos no caminho ou no banheiro do escritório. Cara lavada e roupas chumbregas passam uma imagem desleixada e ofuscam suas qualidades.
- É fato: não dá para usar salto alto se você usa transporte coletivo para ir ao trabalho. A elegância do sapato perde feio para a cara feia e a postura torta causada pelas dores alucinantes nos pés. Sapatilhas são a solução do mundo. Aproveite que estão na moda e, ao contrário dos tênis, são permitidas no ambiente de trabalho. Se o seu for informal, vá de All-Star e capriche no resto da produção. Assim, fica arrumada e confortável.
- Aliás, acessórios bacanas são básicos. Brincos e correntinhas lindinhos, pulseiras coloridas, presilhas bonituchas. Os camelôs oferecem de tudo e por precinhos bastante acessíveis.
- Evite blusas curtas, que revelam facilmente a barriga e os baby-beefs quando você precisa se segurar na barra de ferro do ônibus/metrô/trem. Saias curtas também são um problema: quando vc senta naqueles bancos mais altos do bus, os que ficam acima das rodas, fica difícil levantar no seu ponto sem mostrar a calcinha pra todo o trânsito.
- São Paulo muda de clima como mudamos de humor na TPM. Sabendo disso, não se deixe surpreender. Leve consigo um guarda-chuva pequeno e uma blusa de frio. E jamais saia de casa com uma blusinha furada por baixo do casaco pensando que não vai precisar tirá-lo: de marra, o calor vai chegar. Experiência própria...
- Fuja dos odores desagradáveis: desodorante e chiclete sempre na bolsa!

Comida
- O almoço com os colegas de trabalho pode parecer um momento de descontração, mas continua fazendo parte da sua vida profissional. Invista na sua imagem mostrando bons modos à mesa. Nada de falar de boca cheia, pôr a mão na comida ou (argh!) arrotar. Tenha sempre um espelhinho na bolsa para não sair do refeitório/ restaurante com couve nos dentes.
- Nem todas desfrutamos de vale-refeição - o que traz à tona outra questão pungente: a marmita. Bom seria levá-la numa sacola térmica toda bonitinha, mas haja saco para carregar outra mala, além da sua bolsa! Tenha em casa um tupperware prático que comporte comida suficiente e seja fácil de levar numa sacola de loja ou na mochila. Vale até aproveitar a dificuldade para fazer regime, mas não pode exagerar. Senão, vai ficar com fome e torrar toda sua bolsa-auxílio em lanchinhos de rua gordurentos, calóricos e de procedência duvidosa (ah, que saudades do yakissoba da Paulista...) Quando as comidinhas de rua foram inevitáveis, prefira as que não sujam as mãos.

Modos
- Existem situações em que é preciso fazer coisas desprezíveis aos olhos da elite da moda. Já que não tem escapatória, pelo menos façamos isso da maneira mais fina possível.
Na hora de fazer a chamada Ponte Orca (integração entre CPTM e Metrô feita através de vans entre as estações mais próximas das duas malhas viárias), não dá para marcar bobeira. Quando as portas dos vagões se abrem, a geral sai em manada. Cada um que passa na sua frente pode significar meia hora a mais de fila. E nada mais deselegante que chegar atrasada.
A saída é subir dois degraus por vez na escada. Assim, você garante a velocidade sem ficar com os seios e as gordurinhas pulando de um lado para o outro.

Geral
- Sei que, mesmo que a gente se esforce, as circunstâncias mutias vezes não colaboram nem um pouco. A dica final, então, é incorporar a Lady Di que existe dentro de você: seja chic de dentro pra fora.
Mesmo que a cena externa não esteja, assim, uma maravilha, a atitude de uma mulher bem-resolvida e feliz consigo mesma deixa tudo mais natural e faz bem para a principal interessada: você.


Segunda-feira, Setembro 03, 2007
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ABRE OS OLHOS PRA VER O MUNDO

Nasceram. Melissa no Rio e Bernardo em Sampa. Ela é Lucas, ele é Mayer.
Os dois, ansiados pelas famílias e tietes desde o início da gestação, chegam a um mundo diferente do que acolheu seus pais.
Ela tem um site com suas fotos, ele me apareceu pela webcam e já tem nome no Google. Se depender das previsões, Bernito não terá vergonha de chorar e Milena usará cintura alta na balada. Na escola, aprenderão a se preocupar com o meio ambiente; no trabalho, darão nota fiscal de pessoa jurídica.
O mundo mudou. Caio, Dani, Fernanda e Leandro terão de se desdobrar para aprender e ensinar. Frio na barriga, emoção, responsabilidade. No fim, há de ser uma delícia, se Deus quiser.
Eu, aqui, desejo felicidade aos sete (Bernito tem irmãzinha) e faço votos de boa estadia no planeta aos recém-chegados.
Vai dar saudade da barriga da mãe, é verdade, e vocês só vão se dar conta depois de passar pela adolescência. Mas tudo bem.
Aqui é difícil, mas é legal.


Terça-feira, Agosto 07, 2007
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OS DIAS E AS DORES

Terça-feira, 7 de agosto de 2007, sete e meia da manhã. São Paulo.
Lúcia olha atônita para os óculos da mãe, deitados inertes sobre a mesa. Estão na mesma posição desajeitada há três semanas, desde que foram largados pela senhora que tinha pressa para sair e despachar um pacote para sua cliente.
Do outro lado da cidade, Fernando abre os jornais - eles não falam mais tanto no assunto. A sociedade retomou o ritmo cotidiano e ele deveria voltar ao seu em breve. A CLT garante dois dias de licença por luto; sua empresa, em que trabalha há 30 anos, lhe deu um mês. Ele se serve de café velho, anda pela sala. "Como se mede a dor de uma pessoa em dias?", pensa.
No andar de baixo, Carla vira o anel dourado de um lado para o outro no dedo. No silêncio da manhã, olha para o relógio, como se conversassem. O casamento no civil seria hoje, em duas horas. Ela jamais poderia imaginar que esse dia nunca chegaria.
Sete e trinta e cinco. Bruno olha a rua pela janela do seu quarto - agora só seu. Enquanto seu irmão arruma a cozinha e fala ao telefone com a seguradora sobre os reembolsos pelo funeral, ele mira a fachada do restaurante em frente. A levara lá há um mês, para comemorar o novo emprego de comissária de bordo.
O mesmo restaurante em que Flávia comemorou a notícia da sua primeira gravidez, há sete anos. Nesta manhã, ela chora baixo ao olhar para os brinquedos dos filhos. Em algumas horas, sua mãe chega para ajudar a arrumar o quarto dos dois (intacto desde o acidente), talvez encaixotar algumas coisas, doar algumas roupas. O rádio-despertador começa a tocar Norah Jones.
Michel desliga o som do carro - não gosta dessa música. Estaciona, sobe as escadas e pára durante alguns segundos em frente à sala que fora da colega. O romance dos dois era recente, quiçá fosse passageiro. Não importa - foi intenso o suficiente para sentir-se agora um viúvo bastardo. Doía não poder padecer sua falta em público, como fazia o marido dela. Ele abafa o nó na garganta e se apressa para ligar para o cliente.
Paulo ouve o telefone tocar, mas não atende. Acaba de entrar em um acesso inesperado de choro em seu escritório. Seus funcionários, que nunca o viram esboçar o menor sinal de sentimentalidade, tentam não reagir. A secretária lhe traz um copo d'água e encosta a porta da sala, para lhe dar privacidade. Tinha conseguido enfrentar com copiosa elegância e sobriedade a perda do pai até então. Sucumbiu agora, diante daquela planilha, ao lembrar de quando ele lhe ensinou, ainda menino, como se faz uma tabela de contabilidade. Desesperado, liga para a clínica da filha. Eles conversam - ela não tem pacientes até às onze.
Cida será a primeira; começa a terapia hoje. Ela não precisa acordar antes das nove, mas não descansa em seu sono. O avião que passou em frente ao táxi em que estava a persegue. Ouve as vozes dos passageiros gritando. O mesmo sonho, os mesmos calafrios. Levanta de súbito, suada, só.
No elevador do seu prédio, Ricardo fita o menu de andares e pensa "Fui um bom filho pros meus pais. Um bom irmão, um bom profissional, um bom aluno. Mas nunca tive a oportunidade de ser um bom marido pra ela", o coração pequeno batendo tímido.
Cumprimenta Cláudia no estacionamento e a desperta do devaneio. Terá de voar pelo trabalho hoje. Apavorada, não consegue nem bem ligar o carro. Não tem coragem de pedir para mandarem outra pessoa. Olha seu reflexo no retrovisor e respira. A vida continua. Ela tem que seguir. Todos eles têm.


Quinta-feira, Julho 26, 2007
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NOBODY SAID IT WAS EASY

Ela estava exausta. Passara a noite anterior em claro tentando fazer o bebê parar de chorar.
Ela tentou o embalar, cantar, contar histórias, deu de mamar três vezes entre as 2 e as 5 da manhã.
O bebê dormiu, ela não. Ele mamava o tempo todo e parecia nunca se satisfazer. Mas isso não era o pior - o mamilo rachado, o seio doído, o cheiro de leite - ela entendia que fazia parte, o menino precisava se alimentar. O pior eram os comentários alheios.
No dia anterior, por exemplo, ela e o marido almoçaram na casa da mãe dele. Mal sentaram à mesa, o bebê chorou. "Isso é choro de fome! Você deu o peito a ele hoje?", disse a sogra, com aquele tom represor.
"É só o que eu faço!", pensou. Olhou para o bebê. Ninguém tinha dito que era tão cansativo. Perguntou como andava a perna da sogra e encheu a boca de macarronada.


Terça-feira, Junho 26, 2007
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EU TE FIZ FELIZ

"Eu te fiz feliiiiiiz....", cantava o gurizinho emo apaixonado na rádio. O som transitava mecânico pelo ar barulhento do salão de beleza. Ela folheava uma revista de fofoca procurando uma sugestão de corte de cabelo.
Era tarde de terça-feira, e o calor estava aumentando. A Esther, parecia que os dias esquentavam cada vez mais à medida que se aproximavam as festas de fim de ano.
No meio dos pensamentos triviais que circulavam por sua mente, encontrou lembranças da adolescência. Das músicas que ouvia em sua época, de como se vestia, do que pensava, de como amava, do primeiro namorico. Sorriu de soslaio.
O torpor daquele lugar não a deixou ir mais a fundo na nostalgia. Voltou à superfície, e deixou a almar boiar por entre as novas do mundo das celebridades.


Quarta-feira, Junho 13, 2007
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PINGA NI MIM

Vi um homem vestido de terno e camisa. Ele estava completamente fora de si. Alfaiate é como lhe chamavam.
O vi primeiramente fora do ônibus, fumando um baseado no terminal.
Falava alto, as meninas passavam por ele apressadas, sem levantar os olhos. Senti um pouco de medo também.
Ele veio para meu ônibus. Parece que ele pega o mesmo todo dia, pela intimidade com que o cobrador falava da sua bebedeira.
Da falação, Alfaiate passou à cantoria. Acho que, em sua cabeça, ele imaginava estar fazendo um show diante da platéia.
Aos poucos, a atitude de reprovação e medo das pessoas se transformou em chacota.
E ele cantava, arrastava a língua, mandava beijos desengonçados, e o povo ria. No começo, timidamente, mas em pouco tempo, eram gargalhadas. O cobrador botando pilha "Canta mais, Alfaiate. Se você dançar também, ganha uma tequila".
Enquanto o ônibus seguia em êxtase humorístico, uma mulher no Capão Redondo derramou uma lágrima seca. Assustada com a própria fraqueza, a esposa de Alfaiate limpou o rosto e maldisse o marido.


Sexta-feira, Abril 27, 2007
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ESKIMO FRIEND

"Não é não!" falou alto, olhando para o Gabriel. Discutiam se miojo era mais gostoso que bife. Ela não sabia dizer direito porque encafifou com a carne, mas agora não dava mais pra voltar atrás; ela tinha que ganhar a discussão. "É sim, você que é burra e não sabe." Ele gostava de macarrão instantâneo, mas também adorava um bom filé, daqueles que a mãe lhe preparava às sextas, depois da aula. Mas o que gostava mesmo era de chamar a atenção da Paula, fazê-la ficar por perto, falar com ele. Toda semana tinha um assunto novo para espizinhá-la.
O sinal do recreio tocou e ela voltou para a sala, triste, pensando se era mesmo burra. Não gostava quando ele a chamava assim...
Abriu discretamente a última página do caderno e rabiscou o coração que tinha desenhado há alguns dias, com os nomes dos dois.


Quarta-feira, Abril 18, 2007
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SINDICATO DOS PASSAGEIROS DE TRANSPORTE COLETIVO

Estas linhas não se prestam a defender os direitos dos passageiros, mas a constatar a realidade: todo mundo é valente no transporte coletivo.
Só quem anda de ônibus, trem e metrô sabe o quanto os funcionários de São Paulo são descontentes com seus superiores.
Parece não haver lugar mais adequado no mundo para desabafar as injutiças sofridas nas mãos dos chefes que os coletivos.
Homens e mulheres, principalmente na faixa dos vinte ou trinta anos de idade (especialmente os estagiários), reproduzem diálogos intermináveis a seus amigos e fazem queimar as orelhas de todos os líderes de seus respectivos trabalhos.
Pelos relatos, são uns mártires da CLT. Nas brigas que descrevem, mesmo agindo de maneira calma, sensata e comedida, são sempre alvo de perseguições e ofensas por parte de profissionais incapazes, piores que eles, ambiciosos, e maus, do tipo que tem pêlos no coração.
As inúmeras qualidades que os fazem mais capacitados para os cargos aos quais respondem estão na ponta da língua.
Haja ouvido pra agüentar..

Não me excluo dessa cena irritante. Quando fui eu a estagiária explorada sem dó nem piedade, botei a língua pra fora em milhões de viagens pela cidade entre a redação e a faculdade. Mas isso não muda o diagnóstico.

Reclamaos, xingamos, discursamos e, no fim da linha, chegamos ao escritório, cumprimentandos a secretária, puxamos o saco do chefe e ralamos o dia inteiro sem muitos pios. Afinal, justiça não paga as contas.


Segunda-feira, Abril 09, 2007
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CTRL+ALT+DEL

Ele se sentia ridículo.
Via na tela do computador o reflexo de seu rosto franzido, os cantos da boca retraídos, a expressão amarga.
Baixou a cabeça e apertou com força os olhos.
Como era possível sentir-se tão perdido, tão sem chão por causa de uma pessoa?
Como alguém como ele, senhor de si, racional, podia sentir-se tão dependente e desarmado diante da rejeição de uma mulher?
Levantou-se e foi lavar o rosto. Respirou fundo diante da pia, olhou-se no espelho. Não podia desmoronar em pleno escritório.
Dedicou um último instante à auto-comiseração.
Estalou o pescoço, voltou à baia e retomou o trabalho.


Quarta-feira, Março 28, 2007
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ESSE É SÓ O COMEÇO DO FIM DAS NOSSAS VIDAS

Acordou cansada com o barulho da cozinha. Era sua sogra. Olhou no relógio: sete e meia da manhã. O marido saíra mais cedo naquele dia e chegara a hora de ela trabalhar.
Tomou um banho, cantarolando, e vestiu roupas coloridas, para dar um ânimo.
Pegou seu carrinho e carregou com os quitutes que a sogra havia separado na mesa. "Cuidado para não amassar os beijinhos!" repreendeu a senhora e, como que querendo se redimir do tom quase grosseiro, emendou "Vá com Deus, filha".
O calor estava forte. Sem pressa, ela saiu com sua rasteirinha pela rua, buzinando e anunciando sua passagem "Olha o doce caseiro!". Cumprimentava as vizinhas ao longo do caminho, cada qual ocupada com sua tarefa cotidiana. As crianças eram sempre as primeiras a chegar e não foi diferente naquele dia. "Brigadeiro, pé-de-moleque, olha o docinho".
"Mas que sorriso é esse, menina?", perguntou uma das vizinhas. "Hoje faço um mês de casada!". A outra suspirou "Ah, que saudade desses tempos... aproveita!".
A condição financeira de sua recém-formada família não era das melhores, mas ela não se desesperava. Era apenas o começo da vida a dois com o esposo que amava tanto... Sabia que enfrentariam alguns momentos difícieis, mas aquela era a hora da esperança, dos sonhos, daquilo tudo que enche o coração dos apaixonados.


Quarta-feira, Março 14, 2007
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FELIZ DE QUEM SABE SOFRER

- Como assim??

- Assim, ué.

- Mas... não é justo!

- Eu sei.

- Eu não sabia que já tava no fim! Não deu tempo de terminar as coisas, ta tudo inacabado.

- Pois é.

- Não teve nem aviso! Isso não é justo!

- Não teve aviso? Você está avisado desde o dia em que começou a entender sua língua. O jogo é inesperado, mas o fim é certeiro.
Porque a surpresa? Não jogou como se fossem os últimos momentos? Pois foi avisado que poderia acabar a qualquer hora.
Se você prefere ignorar esse fato para tentar se sentir melhor, não posso fazer nada. Eu aviso.


Segunda-feira, Março 12, 2007
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NOVO FÔLEGO

Aquela dor parecia não ter fim. Marisa estava em trabalho de parto, naquele hospital sujo e frio há mais de cinco horas. Olhou a própria barriga e sentiu um turbilhão de emoções. Fora uma gravidez difícil.Perguntava-se o que o destino reservava a esse bebê; se seria o mesmo dela e dos outros seis filhos. Sentiu uma lágrima percorrer seu rosto suado ao pensar em mais uma criança sua passando fome; os erros do passado a lhe acusar, a sociedade a lhe amedrontar. Silenciosamente, pediu desculpas ao bebê.
As contrações aumentavam a cada instante, se aproximava o momento do nascimento. Naquele frenesi severino, ela empurrou e respirou repetidamente: seqüência que já sabia de cor. Obedeceu ao médico apressado, ambos ansiosos pelo fim daquilo tudo. Com toda a força de cada sentimento seu, empurrou para fora a vida que
carregava.
Veio, então, o alívio. O doutor, mudando o semblante, sorriu, como quem tem suas energias recarregadas. "É uma menina", ecoou sua voz pela cabeça delirante de Marisa. Dos braços da enfermeira, ela pegou Marissol no colo, e a fitou demoradamente... O choro, o barulho da sala e das outras mulheres em trabalho de parto foram ficando longe. As preocupações também. Olhou sua menininha - tão linda! -, e, naquele instante, era tudo que podia ver.
Esqueceu-se, por um momento, que não tinha para onde levar Marissol, senão para o canto embaixo da ponte em que vivia com parte da família. Esqueceu-se da comida que faltava, das injustiças que sofrera, do seu passado, de sua terra saudosa, da dor que até a pouco sentia. Via nos olhos daquela criança a chance de uma vida melhor, de um mundo melhor.
Pensou que, quem sabe, dessa vez, as coisas poderiam dar certo. Mal podia esperar para mostrar o seu bebê ao marido. Tão pequena, tão frágil. "Bem vinda ao mundo", sussurrou, meio para a recém-nascida, meio para si mesma.

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BREVIDADE

Tudo aconteceu muito rápido. As luzes, o rodopio, o barulho, o silêncio e a queda. Sem entender direito o que se passara, Paulo sentiu gosto de sangue na boca. Assustado, tentou mover as pernas. Para seu alívio, com muito esforço, elas responderam.
Olhou em volta, sem conseguir virar a cabeça, tentando decifrar a cena diante de seus olhos. Tudo estava embaçado, mas ele conseguia distinguir o vidro do painel quebrado e Rodrigo, caído sobre o volante, sangrando também. De repente, lembrou-se de onde estavam vindo.
As imagens, como flashes, bombardearam sua cabeça latejante. Viu-se despedindo-se de seus amigos, no fim da festa, entrando no carro, lançando um último olhar a
Priscila. Ela fitou-o também, desanimada.
Ouviu barulhos do lado de fora, provavelmente de pessoas vindo ajudá-los. Rodrigo não se mexia.
"Eu 'tô bem. Juro!". Sentiu-se ridículo por ter dado ouvidos ao que disse seu amigo, e entrado no carro sabendo que ele estava bastante alcoolizado. Todas aquelas campanhas e adesivos com frases como "se beber, não dirija", que sempre foram motivo de tantas piadas, tomaram um teor macabramente sério. Ressonavam em sua mente os maiores clichês: "nunca pensei que aconteceria comigo". Ouviu os paramédicos abrindo uma das portas, perguntando-lhe como estava, se conseguia mexer a cabeça, os membros. Estava envergonhado, e morrendo de medo. Mal conseguia balbuciar. Rodrigo foi retirado primeiro, e, dentro de mais alguns minutos, Paulo, também, encontrava-se em uma maca. Sentia agora uma dor incrível em um dos braços.
O barulho da ambulância era insuportável. Os flashes iam e voltavam. O remorso de ter dito aquelas coisas horríveis a Priscila o torturava. Percebeu que talvez nunca mais chegaria a vê-la, e que aquelas poderiam ser suas últimas palavras àquela que amava tanto. Tentou chamar por ela, naquela ânsia apaixonada de se desespera, mas seus lábios não obedeceram: a anestesia já estava surtindo efeito. Aos poucos, sentiu um torpor tomar seu corpo.


Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007
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DE ONDE VEM O TIRO

Dava pra sentir sua própria pulsação em torno da superfície circular da boca do revólver apertado contra sua nuca. No começo, o cano estava frio. Mas, quando, logo depois de tirar a arma de sua cabeça e disparar contra os policiais, o assaltante voltou a ameaçá-lo, sua pele quase queimou.
O momento era tenso. Na posição em que estava, ajoelhado e segurado pelos cabelos, não conseguia ver muita coisa, mas podia perceber a respiração do outro tão tensa como a sua. Além disso, não havia muita firmeza, apesar da brutalidade, na maneira como segurava a pistola enferrujada (o cheiro de ferro se misturava ao da pólvora). A agitação maior tinha sido no momento do tiroteio. Agora, predominava o silêncio e a estabilidade. Ninguém se mexia.
Mil coisas passavam pela sua cabeça. Tentar dialogar, tomar a arma, fugir. A falta de coragem evidenciava sua sanidade em não fazer nada disso. O homem atrás de si estava desesperado e não pensaria duas vezes antes de atirar.
Haviam se passado quatro dias desde que sua SUV fora interceptada por dois desconhecidos, no bairro dos Jardins, área nobre da capital de São Paulo. Ele voltava do escritório mais cedo naquela quarta-feira e já estava pensando em passar o resto da tarde na piscina do apartamento novo quando viu um revólver pela primeira vez. A mulher tinha levado as crianças para verem a avó em Sorocaba, era a última semana de férias escolares. Passaram-se quase dois dias sem que dessem por sua falta.
No começo, parecia se tratar de um seqüestro relâmpago. Mas o veículo chamou a atenção de policiais despreparados, se iniciou uma perseguição desajeitada e ele foi levado para o coração de uma periferia que não conhecia. Os bandidos, transtornados, não sabiam bem como lidar com a situação.
Jogaram-no, já um tanto machucado, em um quarto pequeno e sujo de um barraco mal-cheiroso. Em um canto, uma cama sem estrado; algumas baratas mortas do outro lado. Pela boneca velha jogada no chão, parecia que o cômodo fora um dia de uma menina. Ficara ali até o momento. A única refeição que tivera foram dois pãezinhos dormidos na manhã anterior, quando um dos homens percebeu que estava ficando muito fraco e teve medo de piorar a própria situação. Pela TV, os dois descobriram que se tratava de um executivo conhecido e que a polícia vasculhava o perímetro do bairro. Suja, assustada e exausta, a vítima ouvia as discussões calorosas entre os dois. Nunca ficava só e sempre havia uma arma apontada para seu rosto.
Sem saída, os criminosos decidiram tirá-lo dali; pensariam no que fazer com ele - ou com seu corpo - quando estivem mais seguros. Um deles se adiantou, o outro se dirigiu à sala com o seqüestrado em instantes. Ouviram-se então tiros e gritos. Um deles, baleado, ficou no chão. Amedrontado, o outro agarrou o refém pelos cabelos e ali estavam.
Se por um lado sentia correr a adrenalina nas veias cheia de esperança de por um fim ao pesadelo, por outro não conseguia impedir o bombardeio de imagens de vítimas de fogo cruzado que vira tantas vezes no noticiário.
Foi quando ouviu o disparo fatal.


Domingo, Dezembro 10, 2006
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O MÃO-DE-VACA E AS PERDIDAS

Eu não ia a um teatro há anos quando meu namorado sugeriu assistirmos ao "Avarento", adaptação de Felipe Hirsch da obra de Molière, com Paulo Autran. Gostei da idéia. Senti saudades de ver atores ao vivo, das luzes de palco, de cadeiras de madeira, da atmosfera teatral. Além disso, nunca tinha visto Autran em cena, estava curiosa.

Combinamos um dia, me arrumei toda. Ele veio me buscar de camisa, todo chique. Ao cinema, vamos até de moletom, mas o clima, dessa vez, era outro. Íamos a um espetáculo. O tipo de coisa que deixa meus avós orgulhosos.

Chegamos ao Teatro Cultura Artística depois de andar para cima e para baixo na Rua da Consolação por uns quinze minutos, tentando achar a ruazinha que dava acesso à Nestor Pestana.

Apesar da nossa antecedência de uma hora, os ingressos estavam esgotados. Percebi que fui ingênua ao pensar que, por ficar em cartaz durante vários meses, as entradas para a peça não seriam tão disputadas, mesmo sendo um sábado à noite.

Um tanto frustrados, decidimos, então, dar uma chance a Maitê Proença, que apresentava a primeira obra teatral de sua autoria, "Achadas e Perdidas", com a (engraçadíssima) colega Clarisse Derzié Luz na sala ao lado. Quando a atriz, que eu tanto vi na tevê, entrou no palco e começou a falar, algo aconteceu comigo. Meu namorado se deslumbrou com sua beleza e eu, com sua presença.

Gosto muito de filmes. No cinema, observo a vida dos personagens, sua intimidade exposta. Analiso seus atos e decisões, formo opiniões. Mas eles não me vêem. No teatro, foi diferente. A personagem, encarnada na atriz, soube da minha existência. Respiramos o mesmo ar, nenhuma tela nos separava. Não pude fugir dos questionamentos que me propôs quando, eventualmente, me olhou nos olhos. A relação entre ator e espectador não foi virtual. A diferença era quase aquela entre a palavra e o toque.

Maitê e Luz exploraram (brilhantemente, ao meu ver) temas desde os assuntos recorrentes nas rodas femininas, como amor, ditadura da beleza e a mania por futebol dos homens, até questões mais profundas, por assim dizer, como a síndrome do pânico e a morte. Tudo com muita criatividade, para burlar as limitações dos cenários simples.

Apesar de haver um telão no palco, mostrando algumas esquetes filmadas (ótima saída para ganhar tempo para trocar de figurino entre uma história e outra), durante as partes ao vivo, ninguém escolheu meu ponto de vista, nenhuma câmera me dizia a qual detalhe eu deveria voltar minha atenção. Apesar de meu olhar enferrujado encontrar dificuldade nisso, foi uma experiência muito gostosa. Saí diferente de lá.

Voltamos os dois, algumas semanas depois, com alguns amigos e assistimos Autran interpretando o mão-de-vaca Harpagon no clássico francês, sua 90ª montagem. Ele realmente é um grande ator. Apesar de eu não ter grandes surpresas com o roteiro (seria difícil, se tratando de um clássico escrito há mais de quatro séculos), o veterano e seus colegas me provocaram boas risadas.

A peça, o cenário, a maquiagem, as roupas, tudo estava fascinante. Trouxeram-me à memória os tempos de aula de teatro na escola (fui Isabel na adaptação da ópera "O Guarani", de Carlos Gomes), sensação boa.

Ainda assim, apesar da pompa em torno da peça, "Avarento" não me marcou tanto quanto Proença e suas crônicas de palco. Aquela foi minha volta ao teatro. Foi bom voltar a me sentir culturalmente ativa.


Terça-feira, Novembro 28, 2006
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A CÍNTIA

Vejo uma leve olheira se formando no meu rosto. Meus olhos estão cansados. No fim do dia, é assim que ficam. As sobrancelhas caem. Eu olho no espelho e as levanto, cerro o olhar: bem melhor. E desfaço de novo. Gosto dos meus olhos. São verdes, o que me rende elogios de quando em quando. Gosto disso também, um pouco de confete não faz mal a ninguém. Mas passam tanto tempo atrás dos óculos, quietinhos, observando, como eu.
Não são apenas os olhos que denunciam minha exaustão: os cabelos desarrumados também. Ultimamente tenho praticado o dom da paciência com a ajuda deles: ando deixando crescer. É difícil segurar o ímpeto de parar em um cabeleireiro quando as coisas vão mal e radicalizar, mas é o preço para ter madeixas longas. Esperar, ultimamente, não tem sido algo fácil. Todo exercício é válido. As raízes loiras sem a costumeira tinta preta também me ensinam algo: a não ter pressa para decidir. Não sei se quero continuar a ser morena ou mudar de emprego. Pra que me afobar?
Sigo minha franja com o olhar nesse espelhinho até a orelha e vejo meus furos cicatrizando. Quis forçar um brinco lindo mas de material de quinta. Inflamaram horrendamente, mas agora estão melhores. Às vezes a gente faz isso: quer tanto algo que escolhe fechar os olhos para os motivos óbvios pelos quais aquilo não é a melhor opção. A vida não quer saber: inflama.
Do lóbulo ao maxilar, ao queixo (quase sem cravos, graças ao bom Deus), à boca. Tirei meu piercing do lábio hoje, para uma entrevista de emprego. Erre-agás não me levam a sério com aquela argola. Esse pedacinho de ouro branco me alegra no dia a dia. Me faz lembrar que ainda existe certa loucura em mim, certa coragem para desafios.
Do pescoço, pende minha correntinha e seu pingente. Um peixe, com inscrições em grego dizendo "Jesus Cristo Filho de Deus". Gosto do assessório. Ele serve como uma mão para segurar nos momentos de raiva ou medo, como lembrete de que meu Pai está comigo, como microfone do meu coração. Me diz a quem pertenço.
Minha blusa preta, que contrasta fortemente com a pele extremamente branca, é tudo o mais que meu espelho alcança.


Terça-feira, Outubro 31, 2006
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IN BETWEEN IS MINE

- Atchim!
- Saúde; Deus te leve.
- Ele há de levar...

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SÃO PAULO, 2005

Às vezes, a gente só quer encostar um pouquinho e respirar. Olhar pra frente, ver as pessoas.
Participar da vida da cidade sem estar atrasado. Sentir na pele o calorzinho de um dia nublado de verão sem medo, deixar o cabelo esvoaçar sem preocupação.
O tempo passar sem reprimir, as coisas simplesmente andarem, sem correr.

UMA PENA, ENFIM

Tem gente na nossa vida que simplesmente não vale a pena. E isso é maior chato, porque, às vezes, a gente gostaria que essas pessoas fizessem um pouco mais por merecer, por acharmos que, no fundo, elas são legais. Mas têm atitudes que não dá pra gente contornar. É uma questão de princípios. Uma pena, enfim..

DE RETÓRICA

Há quem reclame do meu DDA. Eu o vejo como um presente de Deus: participo das coisas com o olhar, o pensamento e a imaginação. E isso me completa às vezes. (Nada que um lápis de cor ou uma tinta não ajudem a embelezar...). Proponho diálogos imaginários, suponho emoções desconhecidas, pergunto tudo e não quero resposta pra muita coisa. Tem coisa melhor?

WONKA

Chocolate looks beautiful, attractive, tasty when it's been melted. It smels better.
But there's nothing beautiful in watching a little castle built in a tiny heart melting down.

TO THE MOON AND BACK

Eu tiro um minuto do meu dia. Hoje deu tempo. Uns segundos mingüados, só pra deixar a mente voar um pouquinho. Só um pouquinho, porque ela tem hora pra voltar. Nada que a ajuda de uma coleirinha não resolva. Pode parecer feio isso, de botar a mente pra passear feito cachorro. Prefiro pensar que é feito pipa.
Meu tempo é pouco, fazer o que? Dá pra correr rapidinho até aquela sala onde ficam os devaneios esquecidos, vislumbrar rapidinho um ou outro. Dou um sorrisinho. E chega, ta chegando a hora de voltar. Bah.


Terça-feira, Julho 04, 2006
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IDE

- Nossa, você tem coragem?
- Não é essa a questão, é que simplesmente não faz sentido nenhum não ir.
- E você não tem medo?
- Ô! Só de pensar me dá um burfs...
- E aí?
- Ah, e aí eu penso: com que cara eu olho pra um deles e digo "Desculpa mas é que estou com medo e, na verdade, eu não preciso passar por isso, acho que não vou" sendo que eles não têm a opção de pular fora do barco? É uma questão de responsabilidade.
- Mas eles nem sabem que você existe...
- Deus sabe. E isso é suficiente.


Terça-feira, Abril 18, 2006
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IT'S MY LIFE

- Sooo... hi.
- Hi.
- What you doing?
- Nothing.
- Hm... I'm Marvin.
- Good.
- You have a cigar?
- I don't smoke.
- Sorry.
- It's ok.
- You're not quite easy going, are ya?
- Not today.


Quinta-feira, Março 02, 2006
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THE SHOW MUST GO ON


- Ouça o que eu te digo.
- Não faz assim...
- Cala a boca, que você está me irritando. Pode chorar, eu não me importo, mas pára de ser ridículo e me deixa falar.
O choro engasgado do rapaz, ajoelhado aos pés da cama, fazia saltar seu peito de quando em quando. A moça continuou.
- Olha nos meus olhos... Não vai demorar muito, nós todos sabemos. Quando eu não estiver mais por aqui, não vai ter ninguém pra passar a mão na sua cabeça. Preste atenção no que eu estou te dizendo. Você chore. Chore muito. Passe dias sem comer nem dormir direito, revire minhas coisas, conte minhas história, ouça meus CDs, leia meus textos.
- Ah, querida.... - disse, baixando os olhos úmidos.
- Depois disso, de um tempo razoável de luto, seja homem e se levante. Vá reconstruir a vida. Livre-se de mim. Viaje, faça novas amizades, conheça uma nova moça, case-se novamente.
- Eu não quero mais ninguém! - protestou.
- É bom ouvir isso. Mas quando eu estiver morta...
Um soluço ecoou no quarto iluminado.
- ...quando eu estiver morta, - continuou - não serei mais sua esposa. E não quero um viúvo inútil e moribundo. Jamais me use como desculpa para se entregar sem luta à dureza da vida e as tristezas do caminho. Você também há de morrer um dia, é uma questão de timming. Pela minha memória, reerga sua vida após o fim da minha. Seja brilhante. Seja agradecido a Deus por todos os momentos alegres que vivemos juntos, por todas as lições que aprendemos. Sonde seu coração e veja se há algo para perdoar ou pedir perdão, e o faça. Se eu for antes, faça-o também. E tenha filhos.
- Querida.... - disse o moço, passando a mão carinhosamente pelos cabelos e depois pela face da mulher amada. O semblante sério dela foi afrouxando num sorriso triste.
- Me desculpe a secura, meu bem. É que de repente percebi como a gente se deixar emaranhar pelo choro e pela angústia nessas horas, e pra isso você terá tempo de sobra. Eu preciso aproveitar meus momentos de calma para resolver tudo o que eu puder para poder ir em paz. Não que qualquer uma dessas coisas vá fazer qualquer diferença para mim propriamente depois da morte. Aí já estarei nas mãos de Deus e nada do que tive ou fiz por aqui terá efeito algum. Mas faço isso por que te amo e quero fazer o melhor por você agora.
- Você é uma ridícula, sabia?? - disse, rindo um pouco e engasgando com o choro. Recuperando o tom melancólico da conversa, ele continuou:
- Como vai me deixar aqui? Sem forças, sem rumo?
- Me desculpe por levar comigo um pedaço do seu coração...
- Saiba que fui feliz em cada dia ao seu lado. Inclusive nos em que brigamos pela sua roupa, pelo controle remoto, por causa da sua mãe. Eu te amo e sempre fui feliz. O mundo sem você era mais simples, mais calmo e mais sem graça. Até te odiar, como durante as discussões, é melhor que viver em paz sem você.
- Pois eu fui uma das mulheres mais sortudas do mundo por ter te encontrado e ainda conseguir ganhar o seu amor... meus dias foram curtos, percebemos agora, mas foram bem vividos.
- Eu não vou conseguir viver sem você...
- Eu também não.. literalmente. Hahahaha - riu ela, descontraindo novamente.
- Sua boba, respondeu rindo também.
- Eu te amo, guri.
- Eu amo você, linda. Vou deixar você descansar um pouco agora..
- Não... fica aqui.
- Mas o médico falou que..
- Deixa de ser ridículo. E eu quero saber dos dois, três dias a mais que vou ganhar se não deixar ninguém me perturbar por mais de 15 minutos? Vou estar morta em pouco tempo, quero mais é aproveitar cada fôlego com as pessoas que eu amo por perto... Deita aqui... isso.


Terça-feira, Fevereiro 21, 2006
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WHERE DUIA DUIA DUIA WANNA WANNA GO


- I don't like what I'm becoming...
- Honey, you're not becoming anything, it's just a fase!
- I guess...
- And you don't have to became it though.
- ...
- You can still make the right choices.
- I'm trying to! I've been praying about it...
- Then let the past in the past and take a good care of your present.
- Love you, Shai.
- Love you too, Sparky.


Quinta-feira, Janeiro 26, 2006
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BACCIOS E UTAS

Tem um poema rondando a minha cabeça há dias, que se nega a se organizar. Flutuam frases soltas ("...de descansar de novo no seu peito..."), referências ("...esses olhos cansados..."), trocadilhos ("No caminho tinha uma Pedra"). Mas ainda não é o suficiente, diz-me o poema-to-be. Ele não se deixa ser escrito, alegando que ainda não está pronto para ficar pronto. Que ainda faltam palavras, frases, sentimentos para se constituir poema. De qualidade, digo. Por que uma pieguice meia boca se faz a qualquer hora. Bom, seja como for, isso não deixa de ser um rascunho do que eu estou tentado dizer: que gosto de você, do que você é, do que você é comigo. E só, porque o poema ainda não está pronto, e a antecipação é traiçoeira.


Sexta-feira, Janeiro 06, 2006
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DA SÉRIE: PERSPECTIVAS PARA O NOVO ANO

Capítulo Um: O homem que se apaixonou por mim


Ele chegou de mansinho, quase não fazendo barulho, se misturou entre os transeuntes e se aproximou sem fazer alarde. Perguntou as horas, falou sobre o tempo e, no primeiro momento a sós, deu o bote.

Ele não pediu licença, nem opinião. Não obedeceu a placa vermelha, ignorou os olhos assustados e mostrou a que veio (e ah! - a que veio...). Me deu a mão e ofereceu o peito e os braços (e até uma coxa).

E foi assim, entrando e tomando conta do lugar. E eu fui ajeitando uma almofada aqui, servindo um cafezinho ali, tentando me acostumar com a presença (ainda que materialmente ausente) desse adorável estranho. E não é que ele está cuidando bem da casa?

Vou ter que aumentar a garagem. Um feliz 2006 pra nós.


Sexta-feira, Dezembro 30, 2005
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DA SÉRIE: DESTAQUES DO ANO

Capítulo Um: O homem por quem eu me apaixonei


O homem por quem me apaixonei por algumas semanas foi um dos ápices do meu ano, quiçá um dos ápices da minha curta vida.

Tirou-me do meu luto e pintou meu nariz. Me convidou a brincar de ser feliz. E fui. Me arrisco a dizer que fomos.

Evocou em mim meu lado mais lírico e poético. Meu lado mais belo, penso eu. Fez brotar palavras pedantemente belas, dentro de um senso de humor ímpar, onde mesóclises levavam ao delírio. Senti-me como uma criança, num parque. Balança, gira-gira, árvores para subir.

Não resistimos, nenhum dos dois, às intempéries. Ô dó. Mas o fim, a tragédia, as decepções, as feridas, essas coisas feias, deixemos de lado. Hoje experimentei lembrar das partes boas. Como me fez bem.

Tive saudades dessa alegria sincera, de pizzas às duas da manhã na rua e pães na chapa (com requeijão) na padaria. Do abraço intransigente na chuva, dos bilhetes, da máquina de escrever.

Meus sorrisos com você foram inesquecíveis. Transcendeu o romântico para imortalizar o lúdico. Você foi pra mim um Doutor da Alegria.

Muitos sorrisos pra você(s - que agora tem mais gente morando no seu mundo) em 2006.


Terça-feira, Dezembro 27, 2005
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FELIZ ANO VELHO

Este ano começou com o fim. Desses fins trágicos de filme romântico policial de terror. Meu relacionamento com uma das pessoas que mais marcou minha vida acabou. De súbito e de vez. E me acabou.

Acabou também o emprego na loja. Acabaram-se os jeans, as metas de vendas e as meias-horas diárias na Saraiva.
Não bastasse, acabou minha caminhada rumo ao diploma com o JOB, minha classe da manhã na faculdade.

Comecei o ano sem namorado, sem emprego, sem dinheiro, sem amigos de faculdade.
No entanto, fins costumam acabar em começos. Como posteriormente eu ouviria de um amigo, às vezes é preciso matar algo para que nasça o novo.

A gravidez do novo chamou-se acampamento de carnaval. Três dias fora de São Paulo com amigos do coração por perto. Música, grama, comida boa, palestras interessantes, Máfia, noites praticamente bem dormidas, Bíblia. Três amigas do peito que sentiram sobrenaturalmente uma ferida a mais e se colocaram a postos.

Pois a primeira a nascer foi a InfoMoney. Emprego na área, salário bom que cobria a mensalidade da Cásper. Desafios muitos, algum medo no começo e muita perseverança. E meio-período.

Então nasceu a vida acadêmica à noite. Entrei no JOD, passei a assistir às aulas efetivamente acordada, como era meu plano. Vieram as caronas após as aulas, e a companheira jodeense de ônibus na volta pra casa.

Foi o início dos yakissobas e dos bares. Conheci pessoas novas, tive conversas inovadoras, comecei a dormir na Paulista de sexta-feira, passei madrugadas acordada na rua e em casas de colegas. Surgiu nesse interim um projeto promissor e bem humorado de namoro.

E veio o casamento. Dos outros, não meu. Tine e Mix, Paulo e Cláudia, e uns outros vários. Vieram então os filhos. Novamente, não meus. Foram, se não me falha a memória, 3 planejados, 3 surpresas e 3 que nasceram sem eu ver.

Houve mortes também. Morreram alguns que me fazem falta e outros que não. Alguns amigos ficaram doentes, a maioria por dentro. Morreu também meu rascunho de relacionamento novo. Veio a raiva e a desilusão.

Chegou meu aniversário e completei 20 anos com o coração pisado. Comemorei com amigos que queriam estar lá sem que eu insistisse e descobri que existem pessoas que me amam mesmo quando eu não me esforço nesse sentido.

Chegou o piercing no lábio e o novo corte de cabelo, que continuou preto. Comecei a sair mais e sair com caras. Alguns muito divertidos, outros nem tanto. Muitas baladas, caronas, fast-foods e risadas, e-mails, telefonemas, scraps. Farra.

A Aline foi para a Irlanda, e voltou com um porquinho simpático chamado Emmit, que me faz companhia ultimamente no lugar dela, e trouxe para mim chocolates, mini Cocas de avião, livros, um boné menor que minha cabeça e um par de meias de leprechauns - um pé verde e o outro branco.

Rolou a viagem com os brothers, o medo, a calma estranha. Descobri que estava de pé, e não de joelhos, como pensava. Mais balada, muito Los Hermanos, um pouco de piscina e sol e muito pouco de comida e cerveja. Passou em parte a raiva.

Voltaram as aulas, e o ultraje. Algumas semanas de passarem reto, mais raiva, alguns rancores. Um peito estufado, um confronto, um band-aid. Voltaram as lágrimas, e a solidão.

Surgiram os infindáveis fins-de-semana com a Mi. 5 da manhã era muito cedo para estar de volta em casa. Pelo menos sempre tínhamos companhia e caronas até as respectivas casas. Mais baladas, brigas nas baladas, pés descalços, muita maquiagem e dormidas furtivas e secretas na ex-casa da Mi.

Vieram os shows. Los, Los e Los. Conversei com Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante (nomes irônicos, aliás) num momento lúdico, me descobri mais profunda em considerações do que pensava.

(Re)Começaram os trabalhos na faculdade, a correria, as provas. Me promoveram no emprego, começou o período integral e o malabarismo com as tarefas da faculdade. Me descobri mais capaz do que pensava.

Fui assistir Pearl Jam na pista do Pacaembu sozinha. De carona, camiseta, all-star, capa de chuva, lente e delineador. Descobri a coragem que a solidão traz.

Chegou o Natal. O Rafa se mudou de volta pra casa e eu voltei pro quarto da minha irmã. A Aline, por sua vez, ajudou na mudança e pouco depois foi pros EUA, deixando o Emmit comigo. Fiquei de filha quase única em um quarto quase meu.

Veio a orquestra, fechando meu ano com chave de ouro. Transcrição de notas, leitura sofrida de partitura, muita vontade de fazer sons bonitos. Seis apresentações em três dias, olhos emocionados escondidos atrás dos violinos, sorrisos contidos pra não estragar o sopro.

Ano mágico, de muito só e pouco muito. Perspectivas boas para 2006... Digo, profissionalmente. A vida amorosa vai ter que ficar mais tempo em hold.


Terça-feira, Dezembro 20, 2005
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KILLING ME SOFTLY

- Está sentindo? Isso, bem abaixo da quinta costela. Mais pra esquerda... Aí.
- Ah, ta. Dá pra sentir mesmo. Tem algum sinal externo? Deixa eu ver.
- Muito de leve. Ta vendo uns vermelhinhos aqui? Mas quase nada.
- Hm... Você trouxe o raio X?
- Ahã. Ta aqui.
- Hm...
- E aí?
- É, ta alocado mesmo.
- Como assim?
- Se alojou aí no meio. Ta vendo esses branquinhos aqui na chapa?
- Ã.
- Então, são tipo raízes...
- Poutis... Isso é sério!
- É...
- E pra quando a gente marca a cirurgia?
- Oi?
- A cirurgia. Pra arrancar fora.
- Você não pode arrancar.
- Como não??
- Ta muito encostado nos seus órgãos vitais, o risco é grande de prejudicar algum deles.
- Mas isso não pode ficar aí dentro!
- Se a irritação na pele ficar pior, você pode usar um corretivo, ou cobrir com a roupa...
- Pouco me importa a pele! Quer dizer, não seria muito agradável se ficasse assim, à vista, mas a questão é que não consigo viver com isso aí dentro..
- Entendo seu ponto de vista. Mas é uma operação impossível.
- Como assim impossível? Vou a outro médico, então.
- Pode ir, ele dirá a mesma coisa. Pra você tirar isso daí de dentro à força, só morrendo.
- Isso não pode ficar aí.
- Concordo. Vai acabar te debilitando.
- E o que eu faço??
- A única solução é dissolver o máximo possível e inutilizar o restante.
- Poutis..
- É, dá bastante trabalho... Podemos começar com uma quimio mais leve.
- Vou precisar de ajuda.
- Vamos traçar juntos um plano de ação. Vai precisar de disciplina...
- Droga...
- Tem alguém para quem você possa ligar para conversar a respeito? Com quem você possa contar? Vai precisar de apoio... Seu marido, talvez?
- Não, ele ainda não chegou.


Terça-feira, Dezembro 13, 2005
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BOMBASTIK

Me dêem uma tesoura! Deixem-me picotar minhas madeixas, deixá-las agressivamente féxion, desfiadas, pretas, em pontas e movimento.
Dêem-me um microfone e uma banda muito boa, e deixem-me gritar uma música pop-rock-poser que atraia um sem número de adolescentes rebeldes sem causa.
Passem pra cá um coturno novo, uma minissaia e um cartão de crédito, que eu vou rodar a noite na balada, dançar até cair, arrasar corações, abalar as estruturas.
Dêem-me um carro e suas chaves, que hoje eu vou ganhar um racha, dar cavalinho de pau e festejar, no fim, junto com os caras gatos e esnobar, de dentro do macacão de couro, as minas que não sabem dirigir.
Me passa um taco de beisebol, um saco de pancadas e algumas garrafas, que hoje eu vou fazer o estrago. Estilhaçar e destruir, até os músculos sentirem-se satisfeitos. Liga o som, bota Rage Against pra embalar.
Me arruma uma prancha bem louca, uma carona e uma blusinha de surfista. Deixa eu peitar o mar e aprender a dominá-lo no tapa. Sentir a onda bater no rosto, cansar os braços de remar, ousar tomar caldo e levantar. Hoje a praia é minha.
Me vê uma Coca, que hoje eu to cheia de mim e vou (me) arrebentar.

Só deixa a porta aberta, que eu vou chegar tarde, mas quero dormir em casa.


Quinta-feira, Dezembro 08, 2005
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ALI NAQUELA PRAIA, ALI NA AREIA

Quem diria, hein?
Que a gente ia crescer, ia tropeçar e chegar onde estamos, do jeito que chegamos?
A brisa hoje é fresca, um pouco fria. Nossos carros, com as rebinbocas das parafusetas zuadas, deixa eles ali atrás nos esperando. Vem sentar na areia comigo.
Esse momento é só de nós duas, irmã.
Deita aqui no meu colo, me conta direito essa história. Quer um pouco do meu mertiolate? Aproveita e me empresta um band-aid.
É gostoso ficar aqui, tomando uma xícara de café contigo (já que o chocolate quente parece que ficou pra trás, junto com as nossas tranças), te contando dos buracos na estrada.
Ninguém disse que era brincadeira, não?
É aqui, no entanto, de frente pra esse mar imenso, que a gente tem de lembrar de voltar para recarregar as forças. Vai, coragem, olha pra água. Permanente, né?
Tá sempre aí, o mar, que, agora que crescemos, dá pra ver que é um oceano.
Põe o pé na areia, sente os grãos. Respira um pouco antes de levantar e ir pro mergulho.
Meu sangue é o mesmo que o teu...
Te amo.


Terça-feira, Novembro 29, 2005
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PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

Parou na frente da floricultura. Ficou encantada com as rosas, as margaridas, os girassóis e as outras trezentas flores que não sabia nomear. A primavera tinha chegado e ela, tão ocupada com aquele relacionamento complicado, nem notara... Imaginou onde ele estaria agora.

Decidiu que não queria mais isso. "Antes só que mal amada!", decretou antes de, sem pensar muito - já tinha gastado muito tempo esperando ele ligar -, desligar o celular, jogá-lo na bolsa e começar a escolher suas favoritas.

Formou um lindo e robusto buquê com rosas vermelhas, bem abertas, e aquelas florezinhas brancas que se coloca em volta de rosas vermelhas.

"Arruma pra presente pra mim, por favor?", pediu à senhora do caixa, enquanto escolhia um cartão adequado "Coloca uma fita bem bonita".

Achou o que procurava, um discreto e elegante, pegou uma caneta e deixou o recado: "Parabéns pela conquista! Que essa nova fase lhe traga muitas alegrias. E na hora do desânimo, força, menina, que você sabe que consegue!".

No caminho para casa, comprou um desses bolos bonitos e pequenos de padaria, para completar a celebração.

Chegando em casa, desligou também o computador, jogou a bolsa no sofá e colocou a secretária eletrônica pra atender às chamadas.

Depois de colocar as flores cuidadosamente no seu quarto, sorriu e, ligou o som. Dançou sozinha, e brindou sua vitória e comeu dois pedaços de bolo - um luxo para as adeptas do regime eterno. "You go girl...".

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PLEASE DIE, ANNA...

Que você tá fazendo aí?? Caramba, surgiu da onde? Devia ter ido embora, esse era o combinado! Te dei tempo e Lágrimas suficientes, todo mundo concordou... Velha, você não pode ficar! Na boa, não dá. e se alguém te vir por aqui?

Vai achar que fui eu que deixei.. Não, não... Melhor ir embora. de verdade.

Machuca, sabia? E outra: pra que ficar aqui? Acabou, não? Então ponto. O coração de lá já deu um jeito, pow... Deixa o meu fazer o mesmo, à minha maneira.. Vai importunar outro...Ai, meu do céu.... Esconde essas cartas! as fotos, os tapes, os flashes! Não precisa jogar fora, mas deixa arquivado em um porão qualquer, sei lá... Tranca, esconde a chave..Não tem porque deixar vir isso tudo, saco. Vai embora, pelamor! Morre, desencana de morar por aqui, se vira... Migra pro lado bom da força. Sei lá. Problema seu. Mas me deixa em paz.. Já não me consumiu o suficiente?? Não tenho condições de te sustentar. Não tenho. Vai embora!!

Sem voz, sem vez, sem viés novo de ilusão...

Disco riscado, fita emperrada, impressora sem tinta, carro morto, bilhete único vazio, sapato de sola solta, cantor rouco, pedreiro engessado, jornalista ruim.

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R.I.P. MARÍLIA

E no sepulcro em que vos enterraste, ainda está. Não adianta gritar. É sua sentença ficar morrendo ali. Foste injuriado primeiro, natural que tenhas te vingado. E saiba que foste bem sucedido. Não tentes, porém, lavar tuas mãos e eximir-te da responsabilidade.

A morte foi culpa dela, mas o enterro foi teu. Sem velório, sem funeral, mandaste-a ao crematório. E do pó que sobrou, não vês a cor. Pois tem, sim, vergonha de mostrar-te cores.

Sente vergonha de odiar tua revanche, e encaminha a si os golpes que deseja desferir a ti, e mata-se novamente cada vez que tem a vontade de ferir-te.

Faz das vossas lembranças a tal cinta de silício do Opus Dei. Sangra-lhe o coração a cada pulsar por elas, por ti. Que sangre. Merece, não? E ela, que não acredita nisso, no merecimento e na punição, sente e ressente calada os espinhos perfurando a pele. Quem liga?

Marília pagou pelo seu crime, e o preço maior é sua mancha apagada no mais curto dos tempos. Seu castigo não foi apenas a morte - que leve o seria... É o morrer. Dia a dia.

Há quem diga que renascerá. Há quem acredite.


Segunda-feira, Novembro 14, 2005
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TO HEAR YOU SAY THAT I'M YOUR FRIEND ou TUDO BEM? ou ainda NA PADOCA

- Moço, por favor, me vê uma Coca?

- Gelo e limão?

- Só gelo. E light, por favor.

__

- Então, onde eu tava?

- Falando do show do Red Hot.

- Verdade. Então, não pude ir. Fiquei com maior raiva... eu não podia ir sozinha (nem queria, na verdade) e não tinha um homem pra me acompanhar.

- É, realmente dá raiva. Que bom que as coisas mudaram.

- Como assim?

- Ah, hoje em dia pelo menos tem mais homem na sua vida. Se precisar, você arruma um pra ir com você.

- Verdade, verdade... mas acho que a melhor coisa mesmo é que aprendi a ir sozinha.

- E você pode?

- Pode como?

- Seu pai deixa?

- Ultimamente nem pergunto, se você quer saber. Acho que ele não liga, também. Tipo, se preocupa, oferece carona, pergunta como foi, mas acho que não fica chateado de eu não pedir autorização, saca?

- Hm..

- É. É bom.

- Lembro de quando você não podia viajar com a galera... rolava maior discussão, lembra?

- Lembro. Me enchiam meu saco pra eu brigar com ele, e exigir independência.

- E não tinham razão?

- Ué, não. Não precisei fazer nada pra conseguir a que tenho hoje. Quer dizer, nada especificamente. Simplesmente veio junto. Trabalho, pago minha facul, sei lá. Vou crescendo e perdendo os laços. Não preciso arrancar.

- É, faz sentido, mas sei lá...Você perdeu umas coisas legais.

- É, isso é verdade.

__

- Aqui.

- Ai, desculpa. Você pode me trazer um sem limão?

- Pode ser.

- Mal...

__

- Cara, eles nunca acertam... Não é tão complicado...

- Porque você pede desculpa pro garçom, se ele que trouxe errado?

- Hahaha... Ah, eu não quero que ele cuspa na minha Coca.

- Afe.. Hahahaha

- Aliás, fica olhando. Eu aposto que ele vai simplesmente tirar o limão e devolver o mesmo copo, em vez de trazer outro.

__

- Aqui

- Brigada.

__

- Falei...

- Hehehe...

- O pior é que não gosto de parecer fresca, mas pow.. O cara tira a rodela e o gosto fica.

- Pede outro copo, então.

- Eu não... Tenho vergonha. Não gosto de cuspe dos outros...

- Sei, sei... Hehehe

- Hahaha! Ok, depende da situação..

- Demorou pra começar, mas também, pegou gosto pela coisa.

- É verdade.. Hahaha..

- Faz quanto tempo já?

- De qual?

- De seca.

- Ah, uns... seis meses. Isso, faz seis meses amanhã.

- Hm..

- Foi da hora.

- É, você contou. Mas na época você parecia assustada, não parecia ter gostado muito.

- Ah, e fiquei mesmo... Tipo, a situação era muito complicada pra mim. E você tem que concordar que depois daquele beijo as coisas se complicaram ainda mais.

- É verdade, é verdade.

- Sabe o que me irrita? Metade da complicação era só nóia mesmo... Coisa que eu aprendi com a situação toda, mas meio tarde. Queria saber o que sei hoje naquela época.

- Ué, mas você não precisou passar por isso pra aprender?

- É, tecnicamente sim.

- Então...

- Hm...

__

- Vocês vão querer mais alguma coisa?

- Am, não sei.. Você tá com fome?

- Um pouco, eu vou querer um daqueles salgados ali.

- Queijo ou bauru?

- Bauru. Aliás, faz um bauru sanduba mesmo.

- Certo. E você, moça?

- Eu... ai, sei lá. Traz umas fritas...

- Ok.

__

- Você não tava de regime?

- Só às terças e quintas.. Hehehe..

- Hahaha.. Figura. Mas continua contando

- Contando o que?

- Que fim deu aquele cara?

- Ah, ficou com uma outra.

- Hm. Você ficou triste?

- Bastante..

- Achei que você não estivesse apaixonada.

- Acho que não estava mesmo. Mas gostava. Sei lá, fiquei meio triste, com a impressão de ter falhado.

- É, é comum sentir isso. Quanto tempo entre você e a outra?

- A partir do "aviso prévio", dois dias.

- Caraca!

- É.. punk.

- Bateu o recorde do outro. Quanto tinha sido antes?

- Cinco dias.

- Vixe...

- Hehehe... Vai ver sou rápida de esquecer.

- Ah, cala essa boca.

- Ok, não acho isso. É só uma provocação completamente inútil ao vento.

- Mas eu entendo seu ponto de vista. Foi pouco tempo mesmo, sorry..

- Thanks. But it's ok. A gente supera.

- Você superou?

- Na medida do possível. O primeiro é mais difícil.

- Quanto tempo faz que acabou?

- Quase um ano. Devem ter aí uns dez meses.

- Você ainda pensa nele?

- Opa, de vez em quando. Sabe o que irrita? Nego que fica bravo comigo por isso.

- Como assim?

- Ah, gente que vem me dar bronca, achando que eu fico me relembrando e cutucando o passado.

- Quem faz isso?

- Tanto meus amigos mais próximos quanto gente não tão perto assim.

- Tipo quem?

- Tipo uma das outras.

- Jura?

- Ah, ela é minha amiga, e numa conversa, soltou essa.

- E você?

- Fiquei mal, né. Acho que quem não viveu o que eu vivi, ou não sentiu o que eu senti, não entende o que acontece depois. Não acaba só porque cada um foi pra um lado.

- Você ainda gosta dele?

- Não é isso. Só to dizendo que não é uma coisa que se esquece assim, plagiando Kid Abelha, dando um mero tchau. A lembrança fica. E não sei se tem de ser destruída...

- Mas não te machuca?

- Sim. E?

- Se te machuca você deveria parar.

- Parar de que?

- De pensar?

- Ah, mas isso eu faço. Ou pelo menos tento. Mas tem coisas que não dá pra evitar, né? Lugares, músicas, essas coisas despertam a memória, meio sem querer...

- Hm..

- Ressaca. Às vezes dá a impressão de que não to pronta pra outra, sabia?

- Quem disse?

- Ué, ninguém. Mas sei lá.

- Sei lá o que?

- Sei lá, uai.

- Pois eu acho que tem mais é que andar pra frente..

- É, deve ser.

- Já tentou de novo?

- Já..

- E no que deu?

- Não deu. Ele tava afim de outra.

- Hm. Acontece.

- É, eu sei.

- Perspectivas?

- Tem um guri aí... mas sei lá. Nem conheço direito.

- Espero que, ficando juntos ou não, seja uma experiência mais agradável que as últimas.

- Né?

- Hmhm.

__

- Fritas?

- Aqui.

- Opa, meu bauru por favor. Valeu.

- Tem maionese? Ah, brigada.

- Passa um guardanapo?

- Tó.

- Thanks.

__

- Notícias daquela sua amiga? Faz tempo que não nos falamos..

- É, né. Fiquei triste quando ela falou que tinha desencanado de você.

- Eu vi. Mas acontece mais do que você pensa.

- Espero não ver muito.. Me acabou.

- Eu também fiquei machucado...

- Mas ela tá indo... você vê ela de vez em quando, né?

- Mais que você.

- Então porque pergunta?

- Pra saber como você está em relação a isso.

- É, eu não estou sabendo lidar direito.

- Você tem orado a respeito?

- Pouco.

- E por quê?

- Porque orar a respeito significar pensar a respeito. E toda vez que eu lembro disso, fico triste. Logo...

- Isso tem nome: fuga.

- Hm.. bom, em minha defesa, eu não me orgulho disso.

- Tenta.

- Me orgulhar? Hehehe...

- Hahaha.. besta. Não, tenta começar a orar.

- Se pá.

- Me dá um gole?

- Opa, toma.. Tá sentindo?

- O limão, né? Hahaha... Tô sim. Poutis, que cocô... Quer dizer, eu gosto de limão, mas pra você que não...

- Sabe que eu fico estupidamente curiosa?

- Diga.

- Por que que eu não suporto frutas. Tipo, vou fazer uma terapia de regressão um dia e descobrir...

- Hahaha.. você sempre fala isso.

- Ué, você não ficaria curioso?

- Sei lá.

- Pois eu fico. E um dia ainda descubro...

- Deve ser trauma.

- É. Se bem que eu fico pensando: e se é um trauma e eu bloqueei? Conscientemente. Ou melhor, por vontade própria?

- Estamos falando das frutas ainda?

- Hehehe.. sim, mas se encaixa pra todas as áreas. Eu tenho a impressão de que tenho uns traumas sexuais também.

- Uia.

- Nem sei se vale a pena cutucar.

- É, eu também não sei se vale...

- Enfim, a questão é: deve ter um porquê com as frutas.

- Hahaha...

- Fica rindo aí, vai, ô, mané...

- Parei, parei.. Hehehe..

- Bah..

- Mas ow, conta direito do show do Pearl Jam.

- Aaaaaaaaaai, te falei que eu vou?

- Hahaha.. precisava ver sua cara agora.

- Seu bobo.. se você não fosse Deus, eu te quebrava!

- Hahaha! Duvido! Qualquer criancinha te espanca..

- Nussa!! Seu folgado...

- Hehehe...

- Te amo, sabia?

- Só porque eu te amei primeiro.. Hahahah!

- Seu.. clichê!

- Haaaahahaha!


Sexta-feira, Novembro 11, 2005
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A INFLUÊNCIA DA HP NA CAPACIDADE DE SE RELACIONAR ROMANTICAMENTE DOS ENGENHEIROS E ESTUDANTES DE ENGENHARIA, BEM COMO CIÊNCIAS CONTÁBEIS, ECONOMIA E OUTROS CURSOS QUE ENVOLVAM O USO DA MÁQUINA

Projeto de pesquisa n/. 14.586.938-7B
Por: Cíntia Lucas e Michelle Baal, pela Universidade de Informações Financeiras e Monetárias de São Paulo (UNInfoMoney)em parceria com as Faculdades de Sistemas de Compilação de Dados Hitachi de Tóquio em Canela - RS (FHDS) (A paritr da tese desenvolvida em conjunto com a Universidade J. Kings)

Proposta: Estudo da influência da posse de uma HP (calculadora eletrônica da Hewlett Packard) na capacidade relacionamental de seus usuários

Tese: A maioria esmagadora dos indivíduos do sexo masculino que possui esse tipo de calculadora (partindo-se do pressuposto que saibam usá-la) apresenta uma significativa deficiência na condução de relacionamentos amorosos com pessoas do sexo oposto.

Hipótese: Pode haver uma ligação direta entre as duas coisas, uma vez que o uso de tal aparelho parece exigir certa tendência à racionalização por parte do dono o que acaba vazando para as faculdades pessoais e interferindo negativamente em seus contatos com o mundo feminino, onde, comprovadamente (Vide pesquisas anteriores) a maior parte das leis de raciocínio usualmente aplicadas na matemática e suas vertentes aritméticas não se aplicam.

Método: Pesquisa de campo com nossas melhores cientistas realizando ex realizando experimentos em terreno (locais como a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo - Poli) e compilação seguida e cruzamento de dados a partir de formulários psicológicos respondidos por engenheiros e afins, voluntariamente.

Segue-se um modelo de formulário:

Levantamento de dados para o estudo A influência da HP na capacidade de se relacionar romanticamente dos engenheiros e estudantes de engenharia, bem como ciências contábeis, economia e outros cursos que envolvam o uso da máquina

Informações gerais
Nome:
Idade:
Sexo:
Opção/orientação sexual:

Formação acadêmica:
Instituição de ensino:
Curso:
Data prevista de conclusão:
Número de indivíduos do sexo masculino por m² na faculdade:
Número de indivíduos do sexo feminino por m² na faculdade:

Histórico relacionamental:
Namora ou se relaciona romanticamente com alguém atualmente?
Número de mulheres que namorou até o presente momento:
Idade em que ocorreu o primeiro beijo:
Período médio demorado entre o primeiro e o segundo beijo:
Número de amores platônicos no ensino médio:
Razão amores platônicos/ namoros sérios:

Perfil de desenvoltura relacionamental
Responda às perguntas abaixo tendo em mente uma situação de relacionamento inter-humano de cunho romântico:

a) Para você é mais fácil resolver uma equação de matemática aplicada que se envereda, eventualmente, pela quinta dimensão do que discutir a relação?
b) Você tem maior facilidade para reparar quando o visor de tela plana LCS da sua HP é riscado do que quando a sua companheira muda radicalmente o penteado?
c) Você calcula a probabilidade de sua parceira se tornar cada vez mais parecida com a mãe dela a partir de constantes físico-algarítimicas?
d) Você já entoou alguma vez, acompanhado ou não de colegas na mesma situação, o seguinte jargão: ¿Namorada pra quê? Eu tenho a minha agá-pê¿?
e) Você se sente perdido durante o período de descontrole hormonal mensal (mais conhecido como TPM) do seu par e não consegue equalizar uma maneira de agir pela falta de constância demonstrada pela outra parte?
f) Você cuida melhor da capa protetora de couro estilizado importado da sua HP do que da sua namorada?
g) Você separa mentalmente em uma planilha do Excel as preferências da companheira (cor, comida, lugares, música) e efetua as operações na hora de escolher um programa para sábado à noite?

A Baal/Lucaxx Data Research agradece a colaboração


Domingo, Outubro 30, 2005
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SONHO NÃO SE DÁ

Sentada no banquinho da praça, abriu o envelope.
Lá estava o nome dele, escrito com uma letra bonita, prateada...
E ao lado, um nome qualquer que não era o seu.
Leu o resto, a data, o local da cerimônia e da festa.
"Março... Que flores será que vão usar?".
Sentiu um nó se formar na garganta.
Pôs a culpa vã de lado e, sem se julgar, deixou a tímida lágrima que se formara no canto do olho abrir caminho para as outras, que pouco a pouco vieram.
Levantou os olhos do rebuscado convite por um instante, pra respirar um pouco, e viu um casal de velhinhos passeando mais a frente.
O coração se apertou. Já estava com 23 anos. Quantos ainda faltavam pra ela acertar?
Abaixando a cabeça, cobriu o rosto com a mão e chorou mais um pouco

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ADRIENNE

"Eu queria ser que nem você, às vezes. Saber lidar assim, tão bem com a situação.. Mas não consigo. Ontem mesmo liguei pra minha ex e falei um monte de merda..."

Ficou orgulhoso de ouvir isso. Sentiu que realmente estava sendo maduro. Até superior, pra falar a verdade. Era bonito perdoar, sorrir, não sentir raiva.

Enquanto ouvia o brother filosofar acerca das suas dificuldades, encontrou uma foto dela perdida na carteira. Se desligando um pouco do blablablá do outro, olhou bem nos olhos da menina.

Lembrou do primeiro beijo deles, da primeira briga, da primeira TPM com ele, da primeira vez.

De repente, com uma caneta, começou a riscar o rosto da menina com força e não conseguiu parar até o papel furar. "Sua vadia". Meio estupefato de se ver xingando e furando o retrato assim, sentiu um alívio inesperado.

"Quê?", perguntou confuso o amigo do outro lado da linha. "Escuta, te ligo depois, velho".

Sem pensar muito, pegou a caixa que ficava embaixo da cama, virou no chão e começou: picotou foto por foto, rasgou as cartas, destruiu o ursinho. Jogou tudo dentro do box do banheiro e pôs fogo...

Sentado sobre o tampo da privada, aproveitou as chamas e acendeu um cigarro. O cheiro de queimado lhe passava um certo contentamento, uma leveza. "Vadia...".


Sexta-feira, Outubro 28, 2005
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CARLINHOS

Ela estava completamente atordoada pela morte daquele garoto.

Nunca se falaram. Se bobear, ele nem sabia da sua existência. Mas, de repente, o acidente aconteceu em pleno horário de aula e o menino bonitinho que se sentava algumas carteiras à sua frente não existia mais. Simples assim.

Quando encontrou seu colega da outra sala no intervalo, seu coração bateu mais forte. "Poderia ter sido ele", pensou. Ela sentiu aquele frio na nuca, desses que só se sente em situações de extremo medo, só de imaginá-lo naquela bicicleta, no lugar do tal colega bonitinho.

Ele, por sua vez não parecia nada abalado com a morte do tal garoto. "Nem sei quem é".

Ela se sentia meio boba perto dessa indiferença, e se segurou ao máximo pra não deixar transparecer aquele leve desespero diante da fragilidade da vida. "Não morre, tá?", foi só o que deixou escapar.

"Que nada a ver...", respondeu ele, num tom repreensor.

Nunca quis tanto que uma pessoa não morresse antes. Nem depois.


Terça-feira, Outubro 25, 2005
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I KNOW WHERE YOU HIDE, ALONE IN YOUR CAR

Ela correu, mas não conseguiu evitar o cabelo molhado. O Ka preto não estava muito longe do cinema, mas a chuva estava forte. Uma vez dentro, ligou o som e olhou pela janela: o maior trânsito. Não deveria demorar muito pra passar, pensou.

Fuçou a mochila no banco de trás e pegou uma blusa de moletom seca. Pegou a lata de Pringle's do porta-luvas, reclinou o banco e aumentou o som. Pensou em como gostava do seu carro. Fora duro juntar dinheiro suficiente a dar entrada e estava sendo duro pagar as prestações. Mas valia a pena.

Era o fim das intermináveis horas no busão (convenhamos que pegar trânsito num carro com música, ar condicionado e comidinhas é bem melhor que engarrafamento no ônibus). Era também ótimo poder enfim retribuir carona aos amigos, quando dava (nem que rachassem a gasolina depois).

Mas o que mais gostava era de simplesmente ficar ali. Era seu petit coin du monde, sua casinha, seu abrigo. Nos dias de stress brabo, ela dirigia até o shopping só pra ficar no estacionamento, organizando os pensamentos, orando, xingando alguém, chorando, até esvaziar a cabeça.

Tinha tudo à mão: no porta-luvas, maquiagem (por que se pintar de manhã cedinho, antes de sair de casa não dá), garrafa de água (sempre abastecida), chiclete (pras emergências) e snacks.

Pendurado no retrovisor (que ela chamava de espelhinho, apesar das reclamações masculinas), ficava pendurado um par de dadinhos; no tapa-sol, o adesivo do OneTruth (pra não perder o foco), uma foto do Bloco e os óculos escuros.

Aos pés do banco de passageiros, um par velho de all-stars (pra não levar multa quando ia de salto a alguma festa); debaixo do próprio banco, um case com todos os seus CDs prediletos (tudo cópia - não queria correr o risco de perder os originais caso o carro fosse roubado). No banco de trás, uma almofada gorda (pras sonequinhas clandestinas no estacionamento do trabalho na hora do almoço) e uma pequena mochila, sempre com uma troca de roupa (básico!) e um casaco (pra não ser pega de surpresa pelo frio).

No porta-malas, nada de pessoal. Nunca estaria ao alcance, se ela realmente precisasse de alguma coisa guardada lá. Só as ferramentas (que ela sabia muito bem usar, apesar da incredulidade da maioria).

Depois de ouvir quase todo o CD e finalmente terminar a latinha de Pringle's, percebeu que o trânsito estava quase bom. Resolveu ligar pra ele, sem disfarçar o sorrisinho bobo.

Adorava seu cantinho...


Sexta-feira, Outubro 21, 2005
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LIBERDADE

"Foi para a liberdade que Cristo nos libertou"

Gál. 5:1a


Cuidados* a serem tomados para podermos desfrutar plenamente** da verdadeira liberdade, que Deus nos oferece:

· "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão" Gál. 5:1

· "Vivam como pessoas livres, :mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos do Senhor" I Pe1:16
"Como filhos obedientes, não se deixem amoldar pelos maus desejos" I Pe. 1:14

· "Não destruam a obra de Deus por causa da comida. Todo alimento é puro, mas é errado comer qualquer coisa que faça os outros tropeçarem. É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair. (...) Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova". Rom. 14:20,21 e 22b

*cuidados = "toda escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça". II Tim. 3:16

**desfrutar plenamente= "feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova" (Rom 14:22b).


Quinta-feira, Outubro 20, 2005
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RETRATOS DE UMA OBSESSÃO

Querido..
Encontrei fotos de vocês na sua gaveta..
Tem um turbilhão de emoções passando dentro de mim neste momento. Eu não sei quem é ela, não sei o que te levou a procurar carinho em outros braços, não sei o que ela tem que eu não tenho. Não entendo o que deixei faltar...
Não imagino o que você possa falar para tirar da minha boca esse gosto amargo.
Talvez nunca perca o peso que você colocou nas minhas costas. Mas o fato é que te amo, e estou profundamente magoada e confusa. Passarei uns dias fora, sozinha, pensando. Preciso desse tempo. Não me procure..
Quando eu voltar a gente conversa.
Que Deus tenha misericórdia de nós...


Terça-feira, Outubro 18, 2005
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90 MILES OUTSIDE CHICAGO

Tudo escuro em volta, e o casalzinho abraçado na parede. De tão apaixonados, nem se beijam.

Ela desespera-se por dentro, em meio a tantos impasses...

"Eu te amo", diz, tristemente, do fundo do coração. Incrível como não mudava nada. Não garantia que estariam juntos no próximo momento. "Eu amo você", sussurra o rapaz de volta. Ele a segura mais forte contra si, e a garota retribui, se agarrando-se ao seu pescoço com força, tratando de aproveitar os segundos do equilíbrio improvável que viviam. Juntam as testas e se olham, intensos. Ela sente sua barba com a palma da mão e sorri incontida um riso tristonho. Fecha os olhos e ficam ali, de lábios juntinhos, respirando o mesmo ar.

Como esperado, a lua vem e vai...

O telefone toca e ela, sentada no sofá, assistindo à tv, nem se mexe... alguém da casa atende, conversa, se tranca com o telefone, e ela limpa aquele cantinho úmido do olho, respira e continua lá até o fim do programa.

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PROJETO

A você com carinho
Uns pensamentos soltos e risos bobinhos
Uma auto censura de devaneios
Uma certa vontade, o mesmo receio

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SCREAMING UNDERNEATH

Pra estreiar, o conto que foi para o I Concurso de Contos da Cásper.
Se ficar entre os dez primeiros, ganho uns bons tempos de cinema grátis..

Screaming Underneath

"Ou é isso, ou entendi tudo errado".

Na sala pequena da biblioteca, por um momento nada se ouvia além daquelas respirações descompassadas.

Os últimos dias haviam sido bastante confusos para aquela moça. O interesse de um no outro era óbvio, mas poucos dias ao lado do rapaz foram suficientes para ela perceber que falavam línguas diferentes. É verdade que, desde que o conhecera, sentia-se constantemente desafiada a manter um fluxo de relacionamento com um mínimo de compreensão mútua. A última semana, porém, havia sido particularmente turbulenta.

Os silêncios deles se intercalavam havia dias, assim como a inquietude de querer saber o que se passava na cabeça do outro. Num súbito de coragem, atendeu ao pedido do rapaz e lhe entregou uma dúzia de páginas de seu diário, na tentativa de esclarecer um pouco aquela neblina. O resultado não havia sido tão bom...

Agora, sentada à mesa redonda, circundada por paredes de vidro, fitava seu par de all-stars surrado e ouvia o rapaz, angustiada, esbravejar sua surpresa acerca das descobertas e conclusões (equívocas, a seu ver) que resultaram daqueles papéis.

Inesperadamente, sentiu diluir o azedume que a embebia ao ouvir a pergunta, e viu se abrir uma brecha na parede que se estabelecera entre eles.

"Entendi tudo errado?", insistiu o rapaz, com uma ponta de esperança nos olhos revoltados. O nó na garganta jovem daquela moça se apertava contra sua vontade.

"Você entendeu tudo errado", conseguiu responder um tanto desafinada. Viu aquela faísca de esperança crescer no olhar do rapaz. Os músculos de seu rosto contraíam-se agora de maneira diferente, desfazendo a expressão quase agressiva dantes.

Por instantes, sentiu uma conexão direta se estabelecendo entre aquelas almas agitadas. Ansiosa, percebeu uma tímida alegria tomar forma dentro de si, e começou a acreditar que talvez conseguiria fazê-lo ver o que ela via.

Não entendia direito a ânsia de querer manter aquela relação. Mas não tinha muito tempo. Começou a tentar organizar a enxurrada de pensamentos desconexos que giravam sua cabeça.

"O que é então?", ouviu-o perguntar, a voz bem mais amena e vulnerável, colocando os óculos sobre a mesa.

Olhou-o nos olhos e tentou ¿ em vão ¿ balbuciar uma introdução; tropeçou em alguns pontos e não soube responder. Sentiu a inquietação voltar e, em pouco tempo, seu próprio silêncio parecia cortar-lhe por dentro.

"O que é então?", insistiu o rapaz, com a revolta retornando-lhe aos poucos. Ele realmente não entendera nada. Observando a gola suada da camisa pólo do rapaz, ela quis chorar. A consciência de que, se ao menos soubesse as palavras correspondentes aos seus pensamentos, poderia por fim aos ruídos que impediam que o rapaz a compreendesse lhe doía.

Nunca se sentiu tão incompetente em toda sua vida. "Que ironia", pensou, à medida que o desespero tomava-lhe novamente. Voltou a fitar as próprias mãos e percebeu que havia descascado metade do esmalte escuro de suas unhas. Lembrou-se das outras tantas páginas escritas em secreto naquele caderno discreto, das inúmeras cartas que escrevera e não chegara a enviar. Sentia na boca o gosto amargo do sarcasmo das palavras, antigas aliadas que agora lhe fugiam...

O ar tornava-se denso demais...

A esperança do garoto pareceu se desfazer. "Je ne te comprends pas", se pôs a falar novamente, inconformado. O tom de voz se intensificava. De vez em quando, a moça lhe respondia sentenças insuficientes, e desesperava-se, assistindo a muralha solidificar-se, cada vez mais alta, entre eles.

Dentre as imagens, sentimentos e impulsos que inundavam sua mente, ela ouvia um de seus cantores prediletos sussurrar " I know I'm dead on the surface, but I'm screaming underneath...".

De mãos atadas, ela chorou aquela noite, e sentiu-se ridícula. Sabia que apenas estabelecer um canal que possibilitasse que um compreendesse claramente o outro não bastaria para salvar o romance. Não era tão ingênua. Ainda assim, "Palavras traíras!", xingava silenciosamente.

Finalmente, ele decretou o fim (e, um tanto pretensioso, previu o depois).

Só então, como se um peso lhe fora tirado das costas, ela já não sentiu mais sobre si a responsabilidade de consertar o roto cordão que os ligava através do tal muro.

No âmago de colocar a angústia para fora, pôs-se a falar. Vomitou aos pés do rapaz todos os contra-argumentos que lhe vieram à cabeça, num surto de vulnerabilidade.

Percebeu, estupefata, a facilidade com que agora as orações se formavam. Como no fim de um suspense policial, em que o assassino, pego, na última tentativa de realizar seu propósito, revela detalhadamente seus planos e táticas. O que teria a perder?

Ele acompanhou calado seu choro, fitando o chão. A moça falou muito, até secar. Até sua cabeça começar a latejar, e já não querer mais raciocinar. Esgotada, deixou de lado as palavras e recolheu-se às lágrimas, reclinando a cabeça, enterrando o rosto nas mãos. "Chega por hoje", avisou a si mesma.

Tal qual um médico, o rapaz deu os últimos pontos, limpou o corte e iniciou a despedida. Ela sentiu a sinceridade do carinho fraternal com que a abraçou ("eu me importo, e não vou embora"), e segurou-o com força contra si por um último momento, em nome dos bons momentos.

E se foram. Cada qual para seu canto. Subindo sozinha as escadas, com a pintura dos olhos toda borrada, recobrou a respiração. Game over . Daí para frente, caberiam as análises, as respostas atrasadas, as lembranças... "O fim tem dessas coisas", pensou. As lágrimas traziam desse alívio de que a tensão se foi, mesmo que o resultado tenha sido adverso.

Foi o aniversário mais triste de sua vida...


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